UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO CAMPUS DE GUARULHOS

CURSO DE LETRAS

TRABALHO DE ANÁLISE LITERÁRIA






 

“JUNTO DE UM SECO, FERO E ESTÉRIL MONTE”

LUÍS DE CAMÕES





Abigail Pereira Fabiano




 
 
 
 
 
 
 
 
Análise literária da poesia de Luís de Camões,
“Junto dum seco, fero e estéril monte” 
do curso de letras português/ francês. 
Professor: Érico Nogueira Período  vespertino.



 

 

 

 

 

 

GUARULHOS

2018



 

 

 


 

 

Trabalho de Análise Literária

Junto de um seco, fero e estéril monte,

Abigail Pereira Fabiano



 A análise da Canção “Junto dum seco, fero e estéril monte” de Luís de Camões, a canção  IX, 
escrita em 1555, possui 123 versos, divididos em nove estrofes: oito estâncias e a finda.
Cada estância é composta por quinze versos hexassílabos e decassílabos. A finda apresenta
três versos, o que é significativamente inferior à metade do número de versos de cada
 estância, como veremos a seguir.

 

Junto de um seco, fero e estéril monte,

inútil e despido, calvo, informe,

da natureza em tudo aborrecido;

onde nem ave voa, ou fera dorme,

nem rio claro corre, ou ferve fonte,

nem verde ramo faz doce ruído;

cujo nome, do vulgo introduzido

é felix, por antífrase, infelice;

o qual a Natureza

situou junto à parte

onde um braço de mar alto reparte

Abássia, da arábica aspereza,

onde fundada já foi Berenice,

ficando a parte donde

o sol que nele ferve se lhe esconde;

 

 A primeira estrofe o poeta situa o leitor em que espaço físico que se encontra, elucida sua

 poética com minúcias de detalhes da natureza, a estrofe segue com a descrição do monte

 situada geograficamente pelo eu lírico,  (v 9-15), quanto à natureza ao redor em que o braço

 de mar que constitui o rio Félix, e a cidade de Abássia, região junto ao Mar Vermelho antig

 cidade chamada Berenice, um lugar quente, famosa por ter algumas das melhores termas d

 Egito, segue descrevendo o Cabo De Guardafui, na Somália, no Continente Africano na

 entrada do Golfo de Aden e Mar Arábico, a vértice chamado de Corno da África apresenta

 uma natureza triste e mórbida, onde mal há vida vegetal e periências vividas naquele espaço 

físico em um determinado tempo de sua vida, deixa transparecer sua subjetividade,

 manifestando que sente, seu estado de ânimo como no (vv 23,24,25),entrar pela garganta

 deste braço,/me trouxe um tempo e teve,/ minha fera ventura.

Nos versos(vv 26-27) os adjetivos” remota”, “áspera” e “dura”destaca o quanto está animal, 

O sujeito lírico inicia a canção descrevendo uma região desagradável, com uso de adjetivos 

expressivos sobre a natureza como “seco”,”fero”, “estéril”, “calvo”, “informe”, um lugar 

considerado feroz .

Com destaque para o verso 5, “nem rio claro corre, ou ferve fonte”, para a falta de perspectiva de

vida do lugar, pois a água simboliza a vida.



nele aparece o Cabo com que a costa

africana, que vem do Austro correndo,

limite faz, Arómata chamado

(Arómata outro tempo, que, volvendo

os céus, a ruda língua mal composta,

dos próprios outro nome lhe tem dado).

Aqui, no mar, que quer apressurado

entrar pela garganta deste braço,

me trouxe um tempo e teve

minha fera ventura.

Aqui, nesta remota, áspera e dura

parte do mundo, quis que a vida breve

também de si deixasse um breve espaço,

porque ficasse a vida

pelo mundo em pedaços repartida

 

 O autor continua expondo as características do espaço físico ao qual fazem parte as suas

 lembranças do continente Africano. O Cabo De Guardafui é cenário com o mar Vermelho 

como sendo moldura a suas breves mas profundas experiências vividas naquele espaço físico, 

solitário, em um ambiente distanciado árduo e remoto, em um determinado tempo de sua vida. 


Aqui me achei gastando uns tristes dias,

tristes, forçados, maus e solitários,

trabalhosos, de dor e d'ira cheios,

 não tendo tão somente por contrários

a vida, o sol ardente e águas frias,

os ares grossos, férvidos e feios,

mas os meus pensamentos, que são meios

para enganar a própria natureza,

também vi contra mi

trazendo-me à memória

algüa já passada e breve glória,

que eu já no mundo vi, quando vivi,

por me dobrar dos males a aspereza,

por me mostrar que havia

no mundo muitas horas de alegria. 

 O (v 31)“Aqui me achei gastando uns tristes dias”o eu lírico se faz conhecer diante

 da falta de perspectiva diante do tempo gasto em que seus dias passam sem sentido,

 o valor semântico dos verbos “achei” e “gastando” reforçam a inutilidade do tempo

 diante de suas dificuldades. A descrição do espaço físico como um lugar inóspito e

 seus pensamentos como em um embate diante de uma vida difícil e que não somente

 a natureza lhes opunha um dificuldade, o próprio sujeito lírico se apropriará de

 pensamentos para enganar o momento vivido. Aos adjetivos “tristes”, “forçados,”

 “maus, “solitários”, afirma a solidão do eu lírico. O uso do adjetivo triste entre a 

palavra” dias” sedimenta o pensamentos e sentimentos do sujeito lírico, os

 versos(37-42) retratam seu estado de pensamento /mas os meus pensamentos, que

 são meios/ para enganar a própria natureza,/ também vi contra mi/ trazendo-me à

 memórique eu já no mundo vi, quando vivi.

O advérbio “aqui” evidencia que existe o “lá”, sua pátria distante e o lugar ao qual

 se encontra, com a alma solitária, atormentada, reforçado pelas paticularidades da

 natureza  sua volta.

Aos adjetivos “tristes”, “forçados,” “maus, “solitários”, reafirma o lugar de solidão.


Aqui estiv'eu co estes pensamentos

gastando o tempo e a vida; os quais tão alto

me subiam nas asas, que caía

(e vede se seria leve o salto!)

de sonhados e vãos contentamentos

em desesperação de ver um dia.

Aqui o imaginar se convertia

num súbito chorar, e nuns suspiros

que rompiam os ares.

Aqui, a alma cativa,

chagada toda, estava em carne viva,

de dores rodeada e de pesares,

desamparada e descoberta aos tiros

da soberba Fortuna;

soberba, inexorável e importuna.


A estrofe apresenta o eu lírico no relato das experiência e sua convivência neste

 espaço na África, (vv 55-57) Aqui, a alma cativa, /chagada toda, estava em carne viva,exprime todo seu sentimento

e não direito e sonhar.

Seus pensamentos em que o tempo passa rápido demais. e se transforma em desespero que

exprime em choros e suspiros nos versos(vv 46-48), A forma verbal utilizada “gastando”, 

o eu lírico confere a seus dias uma brevidade que se vale do tempo e a vida.Aqui estava eu com

estes pensamentos / gastando o tempo e a vida; os quais tão alto / me subiam nas asas, que caía”.

O destino tratado como Fortuna , destino  visto de forma negativa  pelo reptiçao do adjetivo

soberba, (vv.60-61) “soberba Fortuna / soberba, inexorável e importuna” (vv.60-61)


Não tinha parte donde se deitasse,

nem esperança algüa onde a cabeça

um pouco reclinasse, por descanso.

Todo lhe he dor e causa que padeça,

mas que pereça não, porque passasse

o que quis o Destino nunca manso.

Oh! que este irado mar, gritando, amanso!

Estes ventos da voz importunados,

parece que se enfreiam!

Somente o Céu severo,

as Estrelas e o Fado sempre fero,

com meu perpétuo dano se recreiam,

mostrando-se potentes e indignados

contra um corpo terreno,

bicho da terra vil e tão pequeno.


Estrofe começa exatamente com o poeta expondo o sofrimento físico e psicológico do eu lírico

que ao se deixar imolar pelo destino, em suas dores, a segunda parte da estrofe a 

natureza como testemunha, alheia de sua impotência agravada pela ausência da amada causando seu 

sofrimentoe sensação de pequenez. O espaço e o tempo como co-responsável, em que a natureza é descrita

às vezes como testemunha indignada outra vezes em regozijo com seu padecimento e falta de

esperança. O barulho das ondas do mar é citado, relembrando o espaço físico onde 

se desenrola as lembranças melancólicas do poeta.



Se de tantos trabalhos só tirasse

saber inda por certo que algu'hora

lembrava a uns claros olhos que já vi;

e se esta triste voz, rompendo fora,

as orelhas angélicas tocasse

daquela em cujo riso já vivi;

a qual, tornada um pouco sobre si,

revolvendo na mente pressurosa

os tempos já passados

de meus doces errores,

de meus suaves males e furores,

por ela padecidos e buscados,

tornada (inda que tarde) piadosa,

um pouco lhe pesasse

e consigo por dura se julgasse;


A terceira estrofe o eu lírico se faz presente falando de algo que o culpa, seus “doces errores”

(V85 )Se o ouvissem o tiraria do sofrimento, porém a personagem de “olhos claros e “orelhas 

angélicas” a amada poderia abrandar seu sofrimento, mas não lhe dava ouvidos devido a 

lembranças e mágoas passadas. O Eu lírico deixa expresso o seu sentimento de impotência diante

dos fato de querer e a musa não corresponde ao seu sentimento e amor, “tornada – inda que 

tarde – piadosa”, ela é dura, não o perdoa. O adjetivo “angélicas”eleva a mulher amada ao estado

metafísico, inacessível ao eu lírico. É pela amada que o sujeito lírico passa dias se lamentando.

 Tal revelação se dá através de um jogo de “ouvir ou falar”, onde ele deseja que

sua ‘triste voz”, que na verdade, é uma metaforização do pensamento, concretizada no canto, 

fosse ouvida por ela,(vv.79-81) lembrava a uns claros olhos que já vi / e se está triste voz, rompendo

fora, / as orelhas angélicas tocasse / daquela em cujo riso já vivi. O adjetivo “angélicas” eleva a 

mulher amada ao estado metafísico longe do alcance, inacessível ao eu lírico.


isto só que soubesse, me seria

descanso para a vida que me fica;

co isto afagaria o sofrimento.

Ah! Senhora, Senhora, que tão rica

estais, que cá tão longe, de alegria,

me sustentais cum doce fingimento!

Em vos afigurando o pensamento,

foge todo o trabalho e toda a pena.

Só com vossas lembranças

me acho seguro e forte

contra o rosto feroz da fera Morte,

e logo se me ajuntam esperanças

com que a fronte, tornada mais serena,

torna os tormentos graves

em saudades brandas e suaves.

O poeta descreve a esperança de ser perdoado, e como súplica desabafa a amada mesmo 
sabendosilêncio da resposta, o eu lírico amoroso, finge que obterá resposta a seu lamento. “Ah! Senhora, 
Senhora, que tão rica / estais que, cá tão longe, de alegria / me sustentas com um doce fingimento!” 
(vv.94-96)

O pensamento lhe forças para se sentir livre esperançoso com as lembranças da Amada. 

(vv 99-101), Só com vossas lembranças/ me acho seguro e forte/ contra o rosto feroz da fera

 Morte,/ e logo se me ajuntam esperanças/


Aqui co elas fico, perguntando

aos ventos amorosos, que respiram

da parte donde estais, por vós, Senhora;

às aves que ali voam, se vos viram,

que fazíeis, que estáveis praticando,

onde, como, com quem, que dia e que hora.

Ali a vida cansada, que melhora,

toma novos espritos, com que vença

a Fortuna e Trabalho,

só por tornar a vervos,

só por ir a servir-vos e querer-vos.

Diz-me o Tempo, que a tudo dará talho;

mas o Desejo ardente, que detença

nunca sofreu, sem tento

m'abre as chagas de novo ao sofrimento.


O poeta deixa clara a saudade que sente da pessoa amada que está distante, se reporta a natureza

 a como a mesma pudesse satisfazer seus desejos de olhar e tocar a mulher amada saber como ela

 vive, que faz em seu dia a dia , sentir a sua presença anima a  natureza e  em constrate, a 

 ausência da amada é responsável pela secura e aridez do espaço ocupado por ele.O “Desejo

 ardente” lhe vale todos sofrimentos, as lembranças, não ter como vê-la e só o tempo poderá

 ajudá-lo a resolver o problema mas, desejá-la é mais forte que o tempo e abre-lhe as feridas do

 sofrimento.


Assi vivo; e se alguém te perguntasse,

Canção, como não mouro,

podes-lhe responder que porque mouro.


Findando a poesia questionamento de si mesmo,  personificado no eu lírico sobre os dissabores 

do Desejo e sonho, em que se sente vivo por morrer de amor, pois o  amor que lhe dá sentido em

 viver.


Os dilemas e as contradições que dilaceram a sensibilidade, a vontade e a

inteligência exprimem-se (...) nos oxímoros e paradoxos tão frequentes na

literatura maneirista. No commiato da canção IX , Camões retoma uma das

antíteses e um dos paradoxos da mais bela tradição na poesia amorosa,

desde a Idade Média até o Barroco. (AGUIAR E SILVA, 1994, p.120).






A Canção apresenta o eu lírico  imerso em seus pensamentos  que o atordoam, em vão tenta 

se livrar de tais pensamentos , mas as lembranças o fazem sofrer  ainda mais, diante de um 

provável bem, longínquo, inalcançável, o passado e  presente se contraponto, entre a natureza

 inóspita e consciência da interdição que lhe foi imposta. 

O pessimismo diante do mundo ao qual o tempo, denota, uma significância, ao despertar  no eu

 lírico toda sua angústia, o sentimento de que o tempo passa sem que se possa mudar o s

 acontecimentos simplesmente em desenganos tornar sua vida vazia, sem sentido, parada diante do

 tempo, assim como  tudo que o rodeia, o espaço em que  a natureza inóspita, o sol ardente, as 

águas frias e os ares grossos  contribui para a sensação de tristeza logo nas primeiras estância do

 poema. 

O tempo tem um fator  primordial   diante dos sentimentos do sujeito lírico pois simboliza a sua 

impotência diante do passagem do tempo mostra que o passado foi inoportuno e sem

 oportunidade de retorno,O  presente se mostra pior do que o passado mas lhe dá esperança  me o

 que pouca que se possa   ser menos cruel no futuro.

A relação com o tempo, sempre negativas, preocupados  com as mudanças do mundo e a vida,

são características do maneirismo ,uma obsessão angustiante destes poetas  sem direito ao sonhos.

Para os maneiristas o tempo tem um  papel fundamental devido  a brevidade das coisa e dos bens

 do mundo 

A diversidade de gêneros e subgêneros encontrados nas poesias do século XVII, apresenta singular

idade poética de profunda agudeza pelos poetas seiscentistas, com vasto registro de suas obras em

 sonetos, romances décimas, canções, madrigais, e glosas,com destaque para a sua produção na

 Península Ibérica e no Brasil Colônia.

A lírica de Camões datada nesta mesma época é dada ao conhecimento desde a mais sua tenra

 idade ao ser enviado a Universidade que de Lisboa para iniciar seus estudos, aprimorando seus 

conhecimento e a descoberta de seus primeiros amores e paixões que lhe renderam os primeiros

 ensaios, a Egloga 5.

A sua poesia de uma vivacidade impressionante, que suas canções permanece até os dias atuais 

como objeto de estudo para questões contemporâneas, temáticas e semânticas de Camoẽs, 

ao homem, que dada a qualidade específica do poeta, pode ser melhor avaliada no contexto em 

que sua obra foge da norma do que por aquilo que com a norma se conforma.(Helder, Pag 25 

   

O Processo de escrita poética desde a antiguidade se utiliza da imitation atrelada a inspiração

 poética em que a mimese é um fator decorrente da intertextualidade instituída pelos poetas na 

produção de suas obras.

“Fica caracterizado no processo de construção da canção o conceito e transformatio, uma

 vez que o poeta aproveita, de maneira inusitada, essa descrição da natureza, a fim de

obter um efeito inverso ao tradicional, ou seja, não o faz para exaltar a beleza feminina, 

nem como forma de se buscar um confidente; sua intenção é, na verdade, tornar explícito

 o quanto está isolado solitário, deprimido, angustiado”.(idem paulo Roberto conceição)

 


Virgílio em sua clássica poesia épica, A Eneida, se apropria da estruturação dos poemas de 

Homero, e de certa forma, elucida a caminhada de Enéias ao Lácio como a viagem de Ulisses

 em Ilíadas e Odisseu em Odisseia .

Camões ao mimetizar a estrutura poética antiga, dá vida nova a sua poética em que a diferença,

 é como o vinho novo em garrafas antiga inovando sobre o absoluto preconcebido, como afirma 

Helder Macedo.

A genialidade de Camões ao compor os Lusíadas na emblemática viagem de Vasco da Gama 

sublinhando em seus versos muito de sua a caminhada pelos Continentes Africano, pela  Índia, 

 Indochina, onde esteve desde mais tenra idade estabelecendo contato com as diversas culturas

de lugares tão diferentes de Portugal, por 17 anos consecutivos, até seu retorno ao seu  país.

Luís de   camões se utiliza do resgate ao passado da poesia de nomes como Virgílio, Homero, 

Petrarca e outros poetas da antiguidade, o neoplatonismo renascentista, em que a linguagem é 

feita de passados e não de futuros, porém aberto ao novo e ao diferente, em que a mímese permite 

ao poeta renascentista, em um mundo em transição, um projeto de ordem para um mundo de

 excesso, se é que não mesmo um projeto de razão para a desrazão do

mundo (Helder macedo, p.16.).

Foi assim um poeta mais da dúvida do que da certeza, da ruptura mais do que da continuidade, 

da experiência mais do que da fé, da imanência mais do que da transcendência, de uma 

sexualidade indissociável da espiritualidade do amor e no fim da sua demanda, de uma

 fragmentação encontrada no lugar da felicidade desejada. 


O retorno ao passado em que a intextualidade de textos clássicos da antiguidade é mimetizada

 para se criar no presente uma nova contexto literário, propicia a lírica á Camoẽs elevar a língua

portuguesa a ser tão bem cantada como a italiana de Dante, como um alquimista experimental

 dos sentimentos humanos, Camoẽs ao contrário de seus mestres que viam a matéria como como

 obscuração ao espírito, inversamente busca a unidade espiritual na multiplicidade da matéria 

manifestada, se constituindo no poeta do amor diferenciado pela uitas faces  amor divino pelo amor 

humano, ao alcance dos homens, a vontade direciona para o humano e não ao divino, partindo de 

valores preconcebido para reformulação de verdades metafísicas, em que sua originalidade em

 imperceptíveis deslocamentos semânticos, modulando uma linguagem do passado para a 

ressignificação de uma nova visão de vida no mundo real contrapondo a ordem do absoluto divino.

O poeta do amor, a mulher amada, angélicamente simbolizada neste processo unificada em em sua

 multiplicidade, permite aos leitores se deleitte sobre os versos de amor para além do que o poeta se 

manifesta, em que a experiência subjetiva introduzidas no espaço semântico poético como no 

Soneto (Soneto “Enquanto quis Fortuna que tivesse”)(Soneto “Pois meus olhos não cansam, de 

chorar”). O leitor pode se inserir na contexto do poeta.

O poeta se evidencia na poesia portuguesa com sua canção clássica caracterizada pela forma 

e temática em que se aborda o sofrimento de amor , as fragilidades da vida, a mudança,o tempo

que passa inevitavelmente , mostrando se uma poesia reflexiva de confissão em que é visto um 

profundo amor e respeito ao homem. Suas canções refletem a perspectiva do maneirismo com

 características apontada pela incerteza e pela instabilidade, que não pode ser considerado um

 período de contestação, negação, de referenciais clássicos, pois ainda se utilizava muito das

 técnicas e referenciais clássicas como inspiração, foi um período de transição para o Barroco.

 


É impossível compreender o Maneirismo se não se compreende o fato de que a

sua imitação dos modelos clássicos é uma fuga do caos ameaçador, e que o

grande esforço subjetivo das suas formas é a expressão do medo de que a forma

venha a cair na luta com a vida, e de que a arte venha a se desvanecer numa

beleza sem conteúdo. (HAUSER, 1982, p.474).


As características da poesia lírica de Camões e sua especificidade está na suavidade, graça, na

 amenidade de conceitos, qualidades de quais dependem, outros componentes de sua poesia.

A utilização de rimas equivocadas, jogo de palavras, e rimas forçadas ,quando as cesuras rimam 

entre si, permite mais de uma possibilidade de leitura do poema, que sob o olhar de António

 José Saraiva, um estilo engenhoso. O tempo, características do maneirismo, ocupa um espaço

 indispensável em que a nuance do tempo destaca a vulnerabilidade humana diante da brevidade

 das coisas e dos bens do mundo como os versos de Camoẽs:


Que me quereis, perpétuas saüdades?

Com que esperança(s) ainda me enganais?

Que o tempo que se vai não torna mais

e, se torna, não tornam as idades.

[...]

Aquilo que já quis é tão mudado,

que quase é outra cousa, porque os dias

tem o prime[i]ro gosto já danado.


De Camões e a sua cronologia poética não se sabe ao certo pois os registros questionáveis, em

 vista que o próprio poeta não o fez em vida, estima -se que os registros tenham se perdido, no 

Parnaso durante o naufrágio que sofreu em sua viagem a Moçambique, no continente africano,

 e somente após sua morte, houve publicações reunindo seus textos compilados em que os

 primeiros editores se defrontaram com a ambiguidade autoral de inúmeras composiçoẽs, o 

resultado das alterações que foi ou não de sua autoria e o que chamamos autenticamente 

camoniano, ao qual foram muitos os cortes e acréscimo de sua obras durante o século XVI que é

 questionável o que se tornou autêntico da obra camoniana .

Sendo assim, podemos entender um pouco melhor a instabilidade do corpus da lírica camoniana

e a deficiência cronológica de suas obras.





               


REFERENCIAS:

BARRETO, Feio; MONTEIRO. Obras Completas de Luís de Camões Lisboa: Stanford University Libraries, 1843


LACHAT, Marcelo. A lírica amorosa seiscentista: poesia de amor agudo. 2013 .298 f.(Pós – Graduação) – Letras Literatura Portuguesa Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.


HELDER Macedo. Luís de Camões e agora.

 

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